Duas formas de religiosidade.

A humanidade pode agrupar-se sob duas diferentes formas de religiosidade. Umas delas constitui a forma mais conhecida que compreende os seres que podem crer cegamente nos relatos religiosos herdados do passado, sem realmente compreendê-los. Trata-se dos seres que vivem segundo os dogmas, que se consideram a si mesmos como “crentes”, “salvos”, “santos”, “bem-aventurados” e são felizes com sua fé.
Contrariamente, a outra forma de religiosidade compreende todos os indivíduos que não podem crer.

Na verdade, crer não depende da vontade. No que se refere à uma afirmação, pode-se adotar uma postura amigável ou hostil, porque tal atitude depende do controle da vontade; mas o fato de se crer em uma afirmação está totalmente fora do controle da vontade. A capacidade de crer é algo que ou se tem ou não se tem. Mas dado que o fato de poder crer se deve à uma capacidade inata, o fato de não ser religioso não é nenhum delito, porque não se pode executar atos que se baseiam em qualidades que não se têm. Por isso, qualquer forma de intolerância se manifesta à visão oculta como o mais alto grau de ingenuidade.

A mesma ingenuidade se faz presente quando, de modo errôneo, qualifica-se os seres não crentes de “incrédulos”, “condenados”, “filhos do mal”, etc. E o problema se agrava quando se qualifica à maioria de “falta de religiosidade”, porque tal postura vai contra os fatos absolutos. A experiência da vida se baseia exclusivamente na atração pelo desconhecido, o qual constitui o núcleo de toda a forma de religiosidade. Qualquer pessoa normal tem, por isso, um desejo mais ou menos vivaz de chegar a compreender o mistério da vida. E a causa de sua ânsia de saber, de sua curiosidade – por mais ínfima que seja – é religiosa por natureza. Mas nem todos os indivíduos têm o mesmo sentido crítico em relação à interpretação dos mistérios da vida. E por isso devemos distinguir entre os seres para os quais uma interpretação do tipo emotivo é suficiente e os seres para os quais dita explicação não é suficiente, e que além disso necessitam de uma explicação intelectual.

Uma interpretação emotiva significa uma interpretação religiosa, isto é, uma exposição dos mais altos mistérios da vida que mais apela aos sentimentos do indivíduo do que ao seu sentido lógico. Uma interpretação semelhante se manifesta também sob a forma de uma cerimônia – ou melhor, ato religioso – com a música do órgão, canto religioso, velas no altar, imagens de santos, batizados, sacramentos, sacerdotes e coroinhas com roupas cerimoniosas, belos relatos sobre atos de amor e outras coisas do gênero. E não se pode negar que uma interpretação desse tipo pode atuar de um modo altamente inspirador, confortador e extasiante para a mente sensível e pode dar ao indivíudo uma certa sensação de proximidade a Deus. Mas este sentimento não é perfeito. Trata-se de um sentimento com falta de análise. É a sensação que o cego tem de algo que não vê. E aqui temos o núcleo da mais frequente forma de religiosidade.