Uma informação

O conhecido escritor inglês H.G.Wells escreveu um conto sobre “o reino dos cegos”, no qual um vidente de um país distante passa por estranhas aventuras neste reino e onde o sentido da vista é algo desconhecido. Para o visitante torna-se muito difícil, em ocasiões impossíveis, convencer os cegos sobre a existência do sol, do céu e de outras coisas estranhas cuja existência conhece graças à sua incompreensível capacidade. O vidente é recebido com desprezo, desconfiança e finalmente deve fugir do país.

Ignoro se o autor desejou passar uma mensagem com sua fascinante narração, mas em todo caso pode esta ser considerada como uma metáfora sobre as relações humanas. As pessoas muito desenvolvidas espiritualmente, e que desde um ponto de vista profundo podem ser consideradas como “videntes” sempre tiveram dificuldades – quando tentaram expressar as realidades espirituais que conhecem graças às suas “clarividências” – em ser compreendidas e confiadas por seus contemporâneos. A mesma dificuldade teve a imensa multidão “cega” em compreender as mensagens. A humanidade sempre necessitou de muito tempo para compreendê-los.

O objetivo deste folheto é apresentar para o escritor dinamarquês que deixou este mundo no dia 8 de março de 1981 aos 90 anos de idade. Apesar de muitos anos de intensa atividade literária, é todavia pouco conhecido entre o grande público, tanto de seu país como do resto do mundo. Em relação a Martinus impõe-se fundamentalmente o fato de que, – no que se refere à evolução espiritual e às faculdades da compreensão -, estava muito avançado comparado aos seus contemporâneos, uma vez que seus livros estão destinados aos homens do futuro.

Quem foi este homem cuja mensagem é tão importante e tão decisiva para os que o podem receber?

Martinus nasceu no dia 11 de agosto de 1890 em Vendsyssel, no norte da Jutlândia, Dinamarca, onde passou uma infância sob condições muito modestas. Sua educação se limitou a uns poucos anos na escola rural, a qual durante o verão e durante o período das colheitas somente funcionava duas vezes por semana. Aos 12 anos trabalhou como pastor e, seis anos mais tarde, começou uma formação profissional em uma central de laticínios, uma ocupação muito comum no setor agrícola da Dinamarca.

O áureo batismo de fogo.

Quando Martinus completou 30 anos teve início um acontecimento que ia mudar totalmente a trajetória de sua vida e que foi o prelúdio de sua atividade como mestre espiritual. Martinus experienciou uma revelação espiritual – revelação plena de luz – de uma força e intensidade tão inauditas que quase o paralisaram. Em sua pequena obra – “O nascimento de minha missão” – a única que escreveu sobre si mesmo – narrou esta experiência como “o áureo batismo de fogo” que, simultaneamente, lhe deu “consciência cósmica”.

“Mas mesmo que a experiência sobrenatural tivesse que cessar, eu, entretanto, nunca regressei completamente ao mundo físico” escreve Martinus. “Havia ocorrido uma transformação em meu ser”. Havia nascido um novo mundo e havia tomado consciência em um novo corpo. E desde aquele momento, este mundo que existe além dos fenômenos físicos foi incorporado permanentemente à minha consciência diurna. A luz dourada me havia deixado em um estado de imortalidade consciente e com a faculdade de ver que somente existe a vida; que as trevas e os sofrimentos somente são amor camuflados, e que o ser de Deus está presente em tudo e em todos”. (Cap.18)

Antes deste momento Martinus não havia tido nenhum conhecimento sobre tudo aquilo que se refere às “realidades espirituais”. Ele escreve sobre isso: “não sabia nada sobre a imortalidade, e tampouco sobre a reencarnação. Não conhecia a lei do destino e nem a verdadeira identidade dos animais. Não sabia nada sobre a autoridade do amor, nem sobre o verdadeiro mistério da criação; não havia tido, todavia, nenhuma experiência real da proximidade pessoal da Divindade em meu próprio espírito. Desde o ponto de vista religioso era uma folha em branco. O fato de que este estado pudesse permanecer até à minha idade madura, foi devido , neste caso, à feliz circunstância de que meu destino nunca me havia colocado em contato com nenhum livro religioso, nem nenhuma seita, com exceção do que corresponde ao ensinamento religioso infantil dentro da igreja nacional da Dinamarca. Eu era, porém, profundamente religioso e tinha um amor sincero a Deus. Não me lembro de haver passado um dia sem ter feito uma oração. Esta religiosidade era o meu segredo, meu santuário. Jesus era o meu mais alto ideal e minha regra de conduta. Em todos os momentos de dúvida eu me perguntava: “O que faria Jesus nesta situação ?”, e a resposta vinha em seguida. Após poucos segundos sabia como Jesus reagiria na citada situação. E isto me encaminhou ao Pai, me encaminhou à proximidade de Deus. E obedecendo esta prescripção divina que me era dada em cada situação, atravessei limpo, ileso e livre de todo risco, de todos os obstáculos, tentações e perigos que em maior ou menor grau todo homem terreno, todo homem nascido neste mundo, deve atravessar” (Cap.13)

Martinus conta também o modo pelo qual para seus amigos e para as pessoas mais próximas para ele se transformou em um feito “… o que uma milagrosa força de informação pode encher por completo uma pessoa ignorante e, totalmente à margem dos livros, do saber e das investigações dos outros, fazer dela uma capacidade em tudo o que concerne aos fatos, ao conhecimento e à mais elevada sabedoria da vida, ou uma capacidade em tudo o que concerne à informação religiosa”. (Cap. 15).

Martinus sentiu uma necessidade muito forte de comunicar esse conhecimento cósmico, ao que agora havia tido acesso, aos seus semelhantes. E desde a sua vida retirada em um escritório de um laticínio teve que aparecer na vida pública. Primeiro como escritor e, logo mais tarde, também como conferencista. Em 1932 publicou, com a ajuda econômica de amigos, o primeiro volume de sua obra capital, “ Livets Bog” ( O Livro da Vida) e quando o sétimo e ultimo volume desta obra foi publicado em 1960, esta abarcava ao redor de 3.000 páginas. Além de “O Livro da Vida”, escreveu os livros “Logik” (Lógica),

”Bisættelse” (Exéquias), ”De Evige Verdensbillede” ( A Imagem Eterna do Universo) que consta de 5 volumes e 28 obras menores que tratam de diversos temas concretos, assim como uma larga série de artigos publicados na revista “Kosmos”. Martinus deu ao conjunto de sua obra o título de ” O Terceiro Testamento”.

A Imagem Eterna do Universo
© Martinus Institut 1981

Pode-se dizer que a obra de Martinus consiste, entre outras coisas, em uma espécie de registro de todo o universo ou cosmos. Martinus, como em muitas ocasiões teve que tratar conceitos e processos que são novos ou totalmente desconhecidos para o leitor e por isso difíceis de descrever e conseqüentemente de compreender, pensou, em um momento bastante prematuro, em fazer do conteúdo de sua obra algo mais acessível com a ajuda de ilustrações simbólicas nas quais cada cor e cada figura tivesse um significado especial. A maior parte de seus símbolos os criou antes de começar a escrever. Para qualquer um que deseje se aprofundar na cosmologia de Martinus e na ciência do espírito, estes símbolos são de grande utilidade como guia e como ajuda para evitar mal-entendidos. Junto com os livros, estes símbolos darão para sempre uma descrição clara e inequívoca do conceito do mundo que Martinus apresenta.

© Martinus Institut 1981

Muito rapidamente se reuniu ao redor de Martinus um pequeno grupo de interessados que vinha às suas palestras e que formou pequenos círculos de estudo com seus livros como ponto de partida. Em 1935 se estabeleceu uma colônia de verão em Klint, na costa norte da ilha da Selândia, colônia que mais tarde se transformaria no centro Martinus e que se converteu em um lugar de encontro para os interessados em seu trabalho. Neste ponto idílico da ilha foram organizados cursos de primavera, verão, outono e ciclo de conferências. Existe uma sala de conferências, uma biblioteca, um restaurante vegetariano, diferentes pavilhões e casas de verão. O agradável e tranqüilo ambiente serve para reunir interessados não somente da Escandinávia, mas também de países distantes.

Instituto de Martinus
© Martinus Institut 1981

Em 1943 foi adquirida a propriedade de Mariendalsvej, em Copenhague, onde mais tarde se criaria o Instituto. É aqui onde atualmente encontra-se a sede principal da cosmologia. O Instituto tem uma sala de conferências, um centro administrativo cujo objetivo é tornar a obra de Martinus acessível ao público e é o responsável do Centro Martinus em Klint e da revista Kosmos. Os estatutos do Instituto foram revisados em colaboração com Martinus. O resultado deste trabalho foi publicado em 1982, um ano após sua morte. O preâmbulo destes estatutos diz que a instituição deve trabalhar com todos os meios que estão ao seu alcance para servir ao seguinte propósito que tem como objetivo o bem comum: conservar as obras de Martinus inalteradas, tal como saíram de suas mãos, informar sobre estas obras e torná-las acessíveis para os interessados através de publicações, traduções e ensinos sob formas adequadas.

Em Estocolmo (Suécia) foi criada uma fundação para o ensino e publicação das obras de Martinus em sueco.

Em relação a tudo isso é importante sublinhar o fato de que não existe nenhuma sociedade ou associação que trabalhe para a difusão da cosmologia. Apesar de que, de certo modo, pode-se falar de uma comunidade espiritual ou um sentimento de solidariedade entre os interessados, não existe nenhuma sociedade da qual se possa ser membro. O Instituto, por sua vez, não deseja chegar a ser uma organização internacional. A mensagem de Martinus está à disposição de todo o mundo. Ele mesmo se opôs claramente contra a criação de uma sociedade que daria ao movimento um caráter sectário e que, muito facilmente, poderia abrir espaço ao fanatismo, o que absolutamente deve ser evitado. O conteúdo de suas análises não é de um caráter que possa ser limitado pelas estreitas margens de uma seita. Martinus não nos oferece nem dogmas e nem princípios de fé. Em relação às suas análises não se realizam celebrações divinas e nem cultos religiosos, assim como também não são dados nem preceitos e nem proibições. Apesar de indicar a mais alta moral como o único caminho factível para uma evolução positiva, conhece a relatividade deste conceito. Martinus não moraliza, mas analisa e constata. Ele nos mostra a relação correta das coisas, porque as coisas são como são, porque nós somos como somos. Martinus ajuda-nos a descobrir o que podemos fazer para conhecer-nos a nós mesmos e a saber em que ponto nos situamos em relação à nossa evolução eterna para, desta maneira, poder encontrar o caminho através da vida.

A Cosmologia uma ciência espiritual

É impossível, em poucas páginas, apresentar um resumo do conceito do mundo que Martinus nos oferece. Trata-se de algo muito amplo. Entretanto, vamos tentar, de modo muito breve, apresentar alguns pontos importantes que ele esclarece de modo profundo em seus livros e conferências.

A cosmologia de Martinus poderia ser qualificada de teoria evolucionista, posto que o conceito de evolução é o fio condutor que se encontra presente em todas as suas idéias. Mas esta evolução é infinitamente mais extensa do que a conhecida teoria evolucionista biológica. Essa evolução é, sem qualquer dúvida, a mais ampla teoria evolucionista que jamais tem sido exposta. Teoria ? Sim, para a maior parte de nós deve ficar em teoria. Mas uma teoria cuja verdade podemos, em nossos momentos de maior lucidez, pressentir de um modo intuitivo ou aceitar de um modo lógico. Para Martinus, trata-se de uma realidade que ele mesmo experimentou.

Para ele toda vida é eterna, sempre existiu e é a única que existe. A morte é, simplesmente, o oposto da vida desde um ponto de vista teórico.

Toda vida – todos os seres vivos sem exceção – passa, em seu caminhar eterno, por zonas de evolução. Como conseqüência de nossa vida na terra, estamos familiarizados com três destas zonas que se chamam: reino mineral (mundo dos cristais), reino vegetal e reino animal. É importante mencionar que Martinus considera o homem terreno – analisado em seu conjunto – como pertencente todavia ao reino animal, mesmo que no caminho em direção ao autêntico reino humano. Após haver passado por estas zonas, o ser vivo continua seu caminhar através dos reinos espirituais. Ao primeiro destes Martinus lhe deu o nome de reino da sabedoria. Em continuação, encontra-se o mundo divino – no qual a evolução alcança seu ponto culminante – e, finalmente, o reino da bem-aventurança. Um ciclo deste tipo abarca naturalmente épocas enormes.

De acordo com “a lei da necessidade e da saciedade”, o ser vivente, após sua “visita” aos elevados mundos espirituais, regressa de novo a esse mundo de duras contraposições e se envolve de novo na matéria. Começa assim, novamente, seu caminhar através do reino vegetal, animal etc. Mas desta vez em uma “espiral de evolução” superior. A vida circula eternamente através destes seis reinos; não em forma de círculo, mas em forma de espirais cada vez maiores.

O universo está formado pelas seis energias citadas que correspondem às seis zonas de evolução. Estas seis energias estão sempre presentes em todo o ser vivo sob combinações muito diversas: uma delas alcança sua culminação no ser vivo (e não existe nada fora dos seres vivos), duas estão em crescimento, duas estão em um estado de diminuição e uma está em forma latente. Estas seis energias básicas são: a energia do instinto (que alcança sua culminação nos seres do reino vegetal), a energia do peso que tem uma capacidade explosiva (reino animal), a energia do sentimento ( o autêntico reino humano), a energia da inteligência (reino da sabedoria), a energia da intuição (mundo divino) e a energia da memória ( reino da bem-aventurança ou reino mineral). Todas essas energias existem na sétima energia denominada de enegia materna.

No animal, a energia do peso se encontra em seu ponto culminante, enquanto que a energia da memória e a do instinto estão em um estado de diminuição; a energia do sentimento e da inteligência estão em crescimento e a energia da intuição está em sua forma latente. No mesmo grau em que o animal, incluído o homem terreno, evolui em direção ao autêntico homem, a energia do sentimento aumenta (já que então se dirige à sua culminação) assim como também a energia da inteligência, enquanto que a energia do peso começa a diminuir. Por sua vez, a energia do instinto diminui simultaneamente, a energia da intuição começa a despertar de seu estado latente e a energia da memória, ao contrário, se faz latente.

Reencarnação, destino e proteção cósmica.

O princípio da reencarnação está expressado de uma forma muito clara em Martinus e é um elemento imprescindível e natural de grande totalidade cósmica. Quando o ser tenha adquirido esse grau de maturidade que deve alcançar em relação à sua vida na matéria que lhe opõe resistência – e um novo nascimento já não tem nenhum objetivo -, interrompe-se este princípio da reencarnação, para ser repetido de novo na próxima espiral, quando o ser, como já se citou, deseja subtrair-se do mundo espiritual.

Em relação ao princípio da reencarnação, Martinus esclarece as questões que têm referentes ao nosso destino. No último dos casos, somos sempre nós mesmos a causa de todo o prazer e alegria, e de toda a dor e sofrimento que encontramos em nosso caminho. “Como o homem semeia assim também colherá”. O bem e o mal que fazemos são ondas de energia que emitimos e que, mais cedo ou mais tarde ( na vida atual ou na vida futura), regressam a nós mesmos. Ninguém é um mártir. Ninguém sofre injustamente e não podemos nos livrar de nossos sofrimentos antes que sejamos incapazes de causar o dano. Esta lei da vida pode parecer dura, mas na verdade é expressão do supremo amor. Como todas as coisas, o sofrimento tem um intenção e está previsto para estimular nossa evolução. Para Martinus o bem e o mal não existem absolutamente. O que nós qualificamos de mal, Martinus define como “o bem desagradável”.

Quando tenhamos aprendido a lição e sejamos totalmente incapazes, sob qualquer circunstância, de causar o dano a outro ser, estaremos livres de todo sofrimento, teremos uma “proteção cósmica”, a única proteção segura que existe neste mundo cheio de perigos.

Em relação a isto, é importante não cair na armadilha sobre a qual Martinus também nos preveniu, isto é, na idéia de que não devemos ajudar ou consolar aos que sofrem, ou aliviar a indigência dos necessitados, posto que cada um sofre em relação aos seus atos, e porque não se pode interpôr em acontecimentos divinos. Uma culpa tal de omissão é sinal de falta de amor ao próximo e contribui para formar nosso carma, isto é, representa as energias que cedo ou tarde regressam de novo à sua origem. Não somente nossos sofrimentos, também os sofrimentos de todos aqueles que se encontram no nosso caminho, formam parte do plano divino em relação à nossa existência. A imagem do mundo que nos apresenta Martinus irradia o mais elevado amor para com toda a criação

(tudo o que vive) e, como conseqüência disto, a maior compreensão e a maior compaixão possível em relação aos que sofrem.

Martinus cita freqüentemente a Bíblia, especialmente as parábolas e manifestações de Jesus. Grande parte do material espiritual da Bíblia se situa em justa relação cósmica. E o leitor atento compreende, em muitas ocasiões, as narrações bíblicas, as palavras de Jesus, de uma maneira diferente. O que antes parecia vago ou incompreensível transforma-se em algo claro e inteligível. O que se acreditava haver compreendido mostra-se com um significado muito mais profundo do que se podia pressentir. A perspectiva torna-se muito mais ampla.

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© Martinus Institut 1981

Segundo Martinus, o ser vivo é um princípio trino (nos símbolos está freqüentemente mostrado como um triângulo) e os três “lados” deste ser os denomina de X 1, X 2 e X 3.

Ao núcleo deste ser, X 1, não pode ser atribuído nenhum distintivo e nem propriedades. Sobre este somente pode-se dizer que é ”algo que é”, que existe, que sempre existiu e que sempre seguirá existindo. Uma “faculdade criadora”, o X 2, está eternamente ligada a este núcleo. E por meio desta faculdade criadora o ser se manifesta eternamente no “criado”, o X 3. Cada unidade de vida – somente existem unidades de vida – é trina e, simultaneamente, criadora, faculdade criadora e criada. Assim é também a estrutura da Divindade: simultaneamente criador ( O Pai), faculdade criadora (O Filho) e o criado

(O Espírito Santo). Aqui, como em muitos outros casos, dá Martinus um sentido e conteúdo a antigos conceitos e símbolos religiosos.

No universo, os seres vivos se manifestam como “seres vivos dentro de seres vivos”. Cada ser é uma unidade de vida formada por outras unidades de vida. O homem constitui também uma unidade de vida deste tipo e se manifesta composto por unidades de vida menores: os diferentes órgãos do organismo ( que por conseguinte são seres vivos em uma ”zona inferior da espiral”). Estes órgãos estão, por sua vez, formados por unidades de vida menores: as células – e estas estão formadas por moléculas, e assim sucessivamente para baixo no micro cosmos. O homem constitui simultaneamente uma célula na grande unidade de vida do globo terrestre o qual deve ser considerado como um ser vivo em uma zona superior da espiral. E o globo terrestre é um órgão da unidade de vida do sistema solar que, por sua vez, forma parte do sistema da Via Láctea e assim sucessivamente para cima no macro cosmos. Tudo é vida dentro da vida.

A transformação dos polos.

Este tema “a transformação dos polos” é tratado profundamente por Martinus. Suas análises da força cósmica primária, a qual designa como “o fogo supremo” são muito profundas e tocam os limites da capacidade de compreensão do homem terreno. Todos os seres, desde o ponto de vista cósmico, têm dois “polos”; isto é, têm um ”polo masculino” e um ”polo feminino” Um dos polos, no seres que se encontram no nível evolutivo dos animais e dos homens terrenos, foi momentâneamente marginalizado de tal modo pelo outro que o indivíduo aparece como masculino ou como feminino. No reino vegetal esta situação é diferente. Algumas já aparecem com um sexo concreto enquanto outras seguem tendo uma estrutura sexual dupla.

É precisamente entre os animais e entre os primeiros estados evolutivos dos homens terrenos onde a diferenciação sexual ( o domínio de um polo e degeneração do outro) é maior, e a atração entre os sexos alcança por isso o grau de intensidade mais elevado. Somente em relação a um ser do sexo contrário (na qual a tensão entre os dois polos pode atenuar-se) pode-se experimentar a vida em toda sua sublimidade nesta zona evolutiva. Por isso, é que esta área foi qualificada como “a área dos casamentos felizes”.

Mas, é também dentro desta área onde a energia do peso, a qual tem uma capacidade explosiva, alcança sua culminação e se manifesta como um desejo violento do direito de propriedade sobre a relação de casal (par sexual) fomentando o egoísmo, os ciúmes o ódio e a tirania. No caminho evolutivo do ser para o autêntico reino humano existe, de modo gradual, um equilíbrio: produz-se um crescimento do polo feminino no homem e o masculino perde algo de sua força, enquanto que na mulher é o polo masculino que cresce. A mentalidade de violência é substituída pelo humanismo e uma convivência pacífica. A violência dos acasalamentos e dos ciúmes diminui em benefício de um maior e mais autêntico amor ao próximo; não para o sexo oposto, mas em direção aos seus semelhantes. A dependência sexual entre o homem e a mulher é muito menor neste estádio evolutivo. Os homens civilizados de hoje estão em uma fase de transição. Não são nem animais e nem homens. Podem ser comparados às esfinges. São uma mistura de ambos. Como “ desterrados entre dois reinos, além de estarem feridos, encontram-se na “área dos casamentos infelizes”. O autêntico homem, que ainda não pertence a este mundo, mas que será realidade um dia, não é nem homem e nem mulher de maneira marcante, mas ser humano. As análises que Martinus faz deste tema ajudam a compreender melhor as palavras de Jesus sobre o feito de que “após a ressurreição” não se casa.

Atitude em relação a outros movimentos.

A pergunta sobre a atitude de Martinus em relação a outros movimentos idealistas é muito freqüente. Normalmente é uma tradição o fato de que todo movimento tenha um programa com certas idéias pelas quais se luta. Estes tipos de movimentos trabalham para ter o maior número possível de membros em seus registros. Martinus era consciente do fato que não existem duas pessoas iguais e que é impossível estabelecer modelos comuns para seres que estão em diferentes estados evolutivos. È natural, por exemplo, que Martinus fosse vegetariano, que não matasse animais, que fosse crítico em relação à vivissecção e contra todo o tipo de crueldade, que não tomasse bebida alcoólica, não fumasse e que era pacifista. É natural também que os que leram as obras de Martinus, que tiveram contato com ele ou que compreenderam sua mensagem, tentem segui-lo dentro destes campos, de acordo com nível evolutivo de cada um. Mas Martinus não estabeleceu regras sobre como devemos viver. Ele nos mostra o caminho, mas não julga a quem não siga este caminho, não luta por certas idéias, não impõe o vegetarianismo, a abstinência do fumo e do álcool, o pacifismo e coisas semelhantes. Martinus sabia que ninguém pode ser obrigado a viver de um modo para o qual não se tem maturidade suficiente. A maturidade e as modificações em relação à maneira de viver devem vir do interior de cada pessoa.

Quando Martinus, em alguns capítulos fascinantes, esboça o estado do mundo futuro, não se trata de um programa político. Trata-se da visão, por parte de quem tem consciência cósmica, de um futuro reino de paz povoado por homens que através de sua evolução saciaram-se de guerras, violência, ódio e agora realizam seu desejo de paz, beleza e amor autêntico.

O fato de que eu tenha selecionado alguns temas entre os muitos os quais Martinus detalhadamente trata em seus livros, pode levar o leitor a considerar que tudo isto não passa de meras especulações. Os detalhes, separados entre si como peças isoladas de um quebra-cabeça, podem talvez parecer estranhos a muitos. Quem tiver a possibilidade de adquirir uma informação mais ampla sobre o conceito de mundo de Martinus em toda a sua totalidade, compreenderá com quanta exatidão essas peças se correspondem mutuamente. E a lógica absoluta e a beleza deste conceito de mundo fascinarão ao leitor interessado. É importante ressaltar que esta cosmologia e ciência espiritual não foram pensadas por um cérebro genial. Martinus não teve jamais a necessidade de provas lógicas, porque pôde ver diretamente a realidade objetiva através de sua visão interior. Ele apresenta uma estrutura lógica e acessível à inteligência para que os leitores possam compreender suas análises. Martinus deseja que os leitores usem suas faculdades do pensamento lógico e que não aceitem o que ele escreve como algo a que se deva crer. Mas adiante teremos todos – como todos os homens autênticos têm – conhecimento cósmico e poderemos ver a nós mesmos. Não podemos e nem devemos tomar atalhos através da ajuda de meios artificiais. Somente desenvolvendo paulatinamente nossa capacidade de amar podemos, pouco a pouco, aproximarmos-nos ao autêntico reino humano. Mas graças à ajuda de Martinus podemos já, mediante nosso sentimento e inteligência crescentes e nossa incipiente intuição, aproximarmos-nos à uma realidade superior. Ainda que vivamos no “reino dos cegos” podemos pressentir a luz vindoura.